domingo, 24 de abril de 2011

A partida

Era outono. Nós lamentamos por isso, nosso desejo era nadar naquele mar infinito, frio, distante. Eu estava sentada na areia fria, ele estava sentado no banco a uns metros atrás de mim. Nicolas era muito individualista, isso me irritava. A praia estava vazia e pelo menos isso me deixou feliz.
Olhando as pedras enormes da encosta, o mar batendo nelas sem piedade, me senti aflita. Levantei e voltei pra casa. Olhei pela janela e vi Nicolas de costas, sentado, imóvel. Senti remorso.
Lembrei de tudo o que nos aconteceu, chorei, lamentei. Foi semana passada, tentávamos voltar a ter o mesmo relacionamento. Impossível. Não éramos mais os mesmos, a situação é diferente agora. Somos adultos e imaturos mesmo assim. Lembro-me de quando engravidei do nosso primeiro filho, tive que largar a faculdade de medicina, eu sonhava em ser oncologista. Nicolas sempre me odiou por ter engravidado tão cedo. Namorávamos desde o colegial, ele trabalhava na livraria do meu pai. Era tão lindo naquela época. Ruivo, forte, alto, inteligente. Eu era desengonçada, tímida, introspectiva.
Olhando ele ali, já envelhecido. Sem trabalhar, sem cantar. Nem a barba ele fazia mais. Chorei. Senti saudades de outros tempos.
Pensei nos nossos dois filhos. Ester, a mais nova, já está casada. Não a via há dois anos desde o ocorrido. Estava tão linda, mesmo chorando, Ester sempre foi linda. Esperava ver Gabriel também, mas ele não pôde vir. Estava viajando a trabalho. Ele nunca fez questão da família, era egoísta igual ao pai. Mas era muito inteligente.
Senti tanto medo do futuro. Não do meu futuro. Do futuro deles. Como iriam proceder sem mim? Nicolas não sabia mais se cuidar. Nossos filhos não iriam cuidar dele. Eu sabia disso.
Olhei para o lado e vi no espelho, meu reflexo não estava mais ali. Me sentia distante. Longe de mim mesma.
Ouvi meu chamado, sabia o que tinha que fazer. Não queria ir, mas era necessário. O que eu faria ali? Invisível, impotente.
Parti. Naquele dia de outono. Frio. Demorado. Distante de mim. Minha morte foi rápida. Bastou um segundo na estrada, um segundo na chuva. Não me despedi. Isso me atormentava.
Naquele dia eu e Nícolas havíamos brigado, eu queria a separação. Ele era imaturo, egoísta.
Morri, e a única coisa que ele faz desde então é se culpar. Sentar no banco à beira da praia e se lamentar. Não foi culpa dele, nem minha.
Fui embora. E não disse adeus. Dei a última olhada na casa. No Nícolas na praia. E parti.