sexta-feira, 29 de junho de 2012

Estórias para boi dormir

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Era muito sociável, inteligente. Falava de suas viagens como se fossem um troféu e guardava suas lembranças em uma caixa de madeira que escondia de baixo da cama, em seu quartinho na casa de seus pais. Não era mais uma criança, mas também não fazia o tipo adulto de ser. Era mais como alguém que preferiu manter-se jovem.
Andava de bicicleta todas as manhãs, dizia que fazia um bem danado pegar os primeiros raios de sol e as últimas estrelas da noite. Madrugava só pra ver o nascer do sol e não deixava seus costumes de lado. Ganhava "bom dia" das velhinhas assanhadas que passeavam pela pracinha só pra vê-lo recostado no batente da porta, indiferente, como se sua única preocupação fosse não perder de vista seus próprios sonhos. E ele corria atrás dos sonhos.
Não falava tudo o que lhe vinha à cabeça, pois tinha caraminholas sem fim, mas procurava sempre o melhor caminho para a verdade. Tinha beleza diferente. Não era bonito como os rapazes da televisão, nem como os rapazes que as garotas brigavam pra ter. Era bonito como ele só. Só ele. Quando se sentia só, ligava pra sua avó e pedia pra que lhe mandasse seus doces favoritos através da tia Maria, que ia toda semana visitá-la na nova casa de praia. Ele não gostava de praia, era mais do campo. Sua cor já deixava claro que não era da rua, e sim dos livros. Pálido como papel, quando sorria parecia que haviam ligado os holofotes pra uma festa.
Não era de sair à noite com os amigos. Na verdade seus melhor amigo era seu gato Afonso. Tinha mais gosto em observar pássaros, insetos, estrelas, pessoas, e tudo que lhe parecesse interessante. Desejava cursar Biologia na faculdade, mas ultimamente sentia uma vontade de conhecer o curso de gastronomia. Aprendeu a fazer bolo de milho e se sentiu o mestre-cuca mais conceituado do bairro... Todos da família aprovaram sua experiência, alguns até o incentivaram a seguir carreira no ramo, mas sua paixão pela vida era maior do que pela cozinha.
Morava na mesma casa desde os 7 anos, quando veio do litoral pro interior com os pais que fugiam do desgaste da cidade grande e dos infernais vizinhos barulhentos. Sua família era do tipo calada, mas festavam quando algo importante lhe ocorria... Última comemoração foi pelo prêmio na feira de agricultura que seu pai Renato ganhara com seu protótipo de agricultura sustentável. Aliás, seu pai era sua inspiração... Quando criança, ele lhe ensinara a catalogar e a diferenciar um inseto do outro, desenhava para ele e deixava-o tratando os animais que tinham na pequena chácara na cidadezinha tranquila em que moravam.
Quando leu em um livro a teoria de que o universo não possuía só uma dimensão, passou a imaginar um dimensão só sua. Onde fazia as coisas que gostava sem ser perturbado por outras pessoas. Era intransigente quando se tratava de suas coisas, egoísta mesmo. Talvez por ser filho único, e seus pais sempre lhe ensinaram o valor das coisas que possuíam, cresceu cuidando de seus bens. Seu telescópio, sua baioneta de enfeite na perde acima de sua cama, o porta-canetas em formato de globo terrestre.... Seus pertences que desde pequeno era seus tesouros.
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