domingo, 26 de agosto de 2012

Domingo, lá vai

Tinha vontade de fazer algumas coisas. Tinha maneiras grotescas e diários espalhados debaixo da sua cama. Tinha sorte e tinha gatos. Tinha cabelos desgranhados e irmãs que a faziam jurar coisas impossíveis. Tinha a verdade mas não sabia usar. Tinha sua liberdade, mas não era tudo o que procurava. Tinha ocupações mas vivia desocupada. Tinha encantos, pra lá dos seus olhos e bocas, caras e sobrancelhas arqueadas. Ela era esperta, mas se fazia de boba pra fazer charme, talvez. Não tinha um charme natural, era feia em essência mas tinha lá suas qualidades. Tinha confiança, por vezes. E outras vezes também tinha desconfiança.
Desconfiava que não estava só, mas só tentava ficar ali, pateticamente acompanhada, sua sombra e sua voz. Seus fones e seus livros. Suas palavras inúteis e suas fotos banais, das trezentas milhões de redes sociais que com frequência visitava. Era qual o seu caminho então?
Ela poderia viver uma história sendo a principal personagem, ou continuaria ali no canto da página servindo de apoio pra todos os amigos que dela precisassem? Será que aquela menina que agora estaria se tornando uma moça, não gostaria de entrar e tomar uma xícara de café? Ou seria ela tímida a tal ponto de só ser protagonista de seus sonhos e seus textos?
Quem lhe mostraria então uma nova forma de ler histórias? Quem lhe contaria casos de amor sem volta e de bruxas que envenenam de inveja por onde passam? Quem lhe ensinaria essas coisas sobre o céu, a água e o ar? Ela até que poderia aprender a beber e deixar seu cabelo crescer, mas estava a ponto de raspar sua cabeça e começar tudo do zero.
O marco zero. Marcaria na agenda esse dia. É como o dia 26 de maio de 2023. Ela já tinha compromisso marcado pra esse dia. E pretendia manter sua promessa de menina colegial aplicada e organizada. Bagunçada era sua vida. Seu cabelo sempre de pé e seus tênis sempre sujos. O que simbolizava isso? Quando não era seu pé no chão e suas unhas sujas. Por que alguém como ela deixaria isso acontecer? Por que ninguém lhe aparecia com respostas prontas pra que sua vida seguisse adiante?
Pessoas apareciam o tempo todo em sua mente dopada pelo êxtase do sono e do sonho, em flash's irregulares que iam e vinham sem direção coordenada. Seus olhos reviravam de emoção e seu corpo tremia febril. Suas mãos agarradas no travesseiro e nos ursos de pelúcia que sempre a rodeavam, estavam molhadas de suor. Naquela noite entendeu o significado do seu pior pesadelo. Ela sentia que poderia quebrar o ciclo das noites mal dormidas e cansativas com sonhos terríveis que a assombravam até na luz do dia. Ela começou então em sua busca monótona por atenção e queria abraços mais apertados. Beijos mais demorados. Carinhos e mais afagos. Mais namorados. Mais cores. Mais cabelos. Mais facas de pão em suas manhãs ensolaradas. Finalmente.
Mas não, oh não, não se engane pretenso leitor. Não é porque ela entendeu seu sonho maldito que ela o esqueceu. Muito pelo contrário, o tempo todo tentando esquecer a fazia lembrar a cada minuto daquilo e, agora, seus olhos que cintilavam beleza e juventude tinham um certo brilho primaveril que setembro lhe prometia. Seu sorriso escarlate vinha acompanhado de uma mágoa densa e escura, que só ela compreendia. Seu corpo exalava a essência das moças de sua idade. Na flor da idade, em plena polinização. Forma gentil de dizer que estava se tornando mulher.
Mulher. Abandonando as brincadeiras. Abandonando os brinquedos. Abandonando as coisas velhas e reestruturando novos caminhos. Ela sabia que não iria voltar ali naquele lugar, em sua consciência, assim o sonho se fez bom e descansou na mente dela. Ela respirou fundo como quem abandonasse dos pulmões fuligem de anos parado. Piscou seu olhos de briba, olhou para os lados, entendeu que não estava sozinha e nem acompanhada, estava consigo mesma e isso bastava. Os flash's foram sumindo e deixando seus pensamentos brandos e tranquilos, sorriu seu sorriso matinal e voltou a dormir.