domingo, 5 de agosto de 2012

Livros e mais livros

Uma coisa que eu aprendi é ler a introdução do livro que vou ler... Porque assim não vou gastar meu tempo com algo que não seja do meu real interesse... E ultimamente eu tenho ido interesse por muitos livros! No final das férias li dois do Franz Kafka, em HQ, e foi realmente uma aventura e uma loucura vibrante e Kafkaniana! Com o perdão da ma'palavra, além da qualidade das ilustrações e o texto em sua forma poética posta nos quadrinhos... Apaixonante.



Introdução
Por Jules Feiffer

Kuper? Kafka? Kuper interpretando Kafka? Será que precisamos disso? Kafka? Kuper? O time dos sonhos? Isso é mesmo uma boa ideia? Sim, é, e em especial para aqueles que abominam o conceito dos “clássicos ilustrados”, que não passa de uma tentativa de melhorar a imagem dos quadrinhos acrescentando-lhes o peso de figuras culturalmente relevantes.
A ficção- quero dizer, a boa ficção- é escritura sagrada. Ela emociona, envolve, transgride, inspira e, no auge de sua transcendência, funciona como uma versão melhorada da vida. Para o leitor atento, abre os olhos e transforma. O livro certo na idade certa é a melhor terapia.
No caso de autores como Melville, Tolstói e Dostoiévski, converter suas obras em “clássicos ilustrados” não significa torná-los mais acessíveis, mas emudecê-los. Significa subverter o intuito do autor de estabelecer uma cumplicidade apaixonada com o leitor, uma atividade de foro privado que se desenvolve na forma de um duplo monólogo. Em nossa cabeça, nós conversamos com os livros que lemos. Porém, ao se acrescentar quadros, imagens e balões ao texto, perde-se a comunhão secreta que é a chave d poder que a ficção exerce sobre nós. O resultado são imagens de TV congeladas. E ninguém fala com a TV, a não ser para esbravejar com ela.
Neste volume, Kuper não faz aquilo que eu odeio, e sim aquilo que eu adoro. Jazz. Este livro é uma série de riffs, improvisações visuais sobre breves manifestações do velho mestre. Oque se tem é um divertido e audacioso número de corda bamba, em que a euro-alienação estoica de Kafka se encontra e se mistura com a americaníssima alienação rock’n’roll de Kuper. Nossa alienação é mais ruidosa, mas estridente que a deles. Os americanos querem sair ganhadores mesmo quando perdem, por isso ficam indiferentes. Nestas páginas, Kuper nos mostra uma indiferença histérica. E com sucesso. É como Charlie Parker tocando “Embraceable You”: pode não ser George Gerhwin, mas é arte. E eu, pelo menos, converso com sua arte.


(Introdução do livro "Desista e outras histórias de Franz Kafka")