quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Não durma lendo isso. Não leia isso.

Eu achando que estava livre daquela fera, ouvi de longe os passos do lobo. Meus ouvidos não estavam conseguindo se concentrar nos sons da natureza, a única coisa que eu conseguia ouvir era o som tremulado e apavorado do meu coração. Daquele dia em diante, eu jurava pra mim mesma, não iria perder nem um segundo a mais perdendo a minha vida.
Mas minhas mãos suavam, meu corpo estava vacilante e meus olhos não focavam em nenhuma imagem certa. Eu via árvores grandes, eu via folhas caindo, via os galhos secos no chão, cada vez... Mais... Perto. Sentia a terra no meu rosto, não estava consciente o suficiente pra discernir se eu estava caída no chão ou se eu já estava morta. Ali, sozinha naquele bosque longe de qualquer civilização, antes meu retiro espiritual. As imagens iam e vinham nos meus olhos e agora eu estava inconsciente de verdade. Não via, não ouvia, nem cheirava. A única coisa que pude perceber eram os gritos que vinham de trás de mim, não consigo me lembrar o que diziam, nem se era mulher, homem, criança, velho.... Eram gritos. E eu estava impotente.
Quando emergi do meu sonho negro no chão do bosque, fiquei aflita por não sentir meu corpo como antes, era estranha aquela força vinda do nada. Os gritos agora eram meus, o que eu vi ali naquele lugar marmóreo na minha memória não me deixa dormir desde então... E quando me pego pensando nas imagens refletidas, fico imaginando minha vida de outra forma. Sem esse pesadelo vivo.
Era a minha chance de sair correndo e eu me levantei. Mas minhas pernas enfraquecidas logo me fizeram cair nas folhas secas, causando grande barulho no meio daquele silêncio doentio. Aonde eu estava? Não era o bosque... Quem me levou pra lá? Oque eu fazia ali com aquele pijama azul de bolinhas brancas? Por que o ar cheirava à bolo de aipim e grama recém cortada? Não havia nenhuma casa ao redor e quem pudesse estar ali por perto, certamente não pararia pra fazer algum bolo.
Aquele lugar era sujo, assustador, escuro, não havia vida nem nas árvores. Não havia pássaros sobrevoando, não havia nada. Só eu e galhos secos, mortos.
Eu queria sair correndo, mais ainda não entendia como estava me movimentando, estava com o corpo fraco mas os pensamentos vinham toda hora, me deixando com vertigens alucinantes... Eu não me joguei no além, não atirei na minha garganta, não me perdi em pesadelos... O que era aquilo tudo então? Aonde estava o sentido?
Quando notei já estava em frente a um casebre estranho, de formas nem um pouco lineares, eu me sentei em frente daquele lugar, com as pernas cruzadas, em posição de meditação. Não entendi o porquê do meu corpo de movimentar daquela forma, não era eu, eu era só a minha consciência. Meu corpo então levantou-se e abriu a porta do casebre, de forma abrupta e sem educação... Não havia nada ali dentro além de uma mesa com uma maçã em cima. Uma maçã que de um lado era vermelha e deliciosamente linda, e do outro era nojenta, repugnante, cheia de larvas e fungos. O que aquilo simbolizava na história? E por que diabos eu tinha que estar ali de pijama?? Não queria pensar na realidade, iria descobrir o que estava acontecendo.
Meu corpo, com movimentos sibilantes foi se movendo pelo casebre, por entre os cômodos e parou de frente ao que parecia ser o quarto principal. Tocou de leve na porta que já estava aberta e abriu passagem para si. Lá no quarto havia um espelho torto, sujo e com as bordas quebradas, mas que cobria quase uma parede inteira, refletindo o corredor da onde eu vinha e minha própria imagem. A minha imagem...
Quem era aquele corpo? O que eu fazia nele? Não era eu. Eu estava dentro de alguém, eu conhecia esse alguém... Muito familiar, mas seu nome não me vinha à cabeça. O reflexo se olhava admirado, como se o corpo tivesse entendimento de que sua consciência não lhe pertencia, se moveu até perto do espelho, tocou o nariz de leve em seu próprio reflexo, beijou-lhe a boca como se fosse outra pessoa que estivesse ali na sua frente, ergueu a mão em um movimento abrupto e socou o espelho com força, rachando-o de cima a baixo... Mas não quebrando.
Olhou a mão, estava sangrando e eu não senti nada, não senti aquela dor. Olhou em volta, e foi procurando outros cômodos. No próximo, era um quarto menor, que aparentava ser antigamente de uma criança (o papel de parede tinha desenhos florais, mas infantis). O corpo aproximou-se da pequena janela que não fazia muito efeito ali no cômodo, pois estava tudo úmido e cheirando a mofo, abriu a janelinha... Ventou naquele momento, um vento atípico. Saímos do quarto. Agora eu participava da história.
No próximo cômodo visitado, era a cozinha, o corpo se moveu até a pia e lavou sua mão na torneira que saía uma água suja e rala. Virou-se. O lugar estava imundo, parecia não ser habitado por ninguém há anos. Olhando para os lados, o corpo se moveu até a porta dos fundo e saiu... Sem se despedir da casa, andou em direção oposta a ela e continuou seu caminho, que para mim era uma incógnita. Eu sentia medo, mas uma gostosa sensação de estar assistindo um filme, e que logo tudo acabaria.
Eu curtia o momento enquanto via o corpo entrar num rio perene que tinha na redondeza daquele lugar que eu nunca estivera antes. O corpo entrou na água e simplesmente boiou.
Não me pergunte como voltei ao meu corpo, ou a minha sanidade. Não sou insana. Não é mentira.
Contei essa história aos meus conhecidos, me internaram. Fui medicada e hoje passo meus dias cortando minhas unhas com os dentes e contando quantos fios de cabelo tenho. Não sou louca. Cadê minha sanidade?
Cadê o fim dessa história...