segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Trecho do diário de Isabele Klotzenstein

Se não tiver sono, me chama. Se tiver medo, me chama. Se sentir dor, me chama também. Se tiver sede, me chama de novo. Se tiver com tédio, me procure. Se tiver de bobeira, de bobagem, de cabeça para baixo, de chapéu camurça, de cavalo marinho, de meias coloridas, de desenhos animados, de traços renovados, de cabelos arrumados, de músicas alteradas, de taras engraçadas, de tristes enterros... E ainda, se precisar de um ombro, de uma amiga, de um abraço, de um beijo na bochecha, uma brincadeira, um cachecol, um livro, um trecho do meu caminho, um quilo da minha risada, um tanto do meu sorriso, um pouquinho da minha tristeza, um tantão da minha juventude, uma tonelada do meu amor... E se ainda não for suficiente, pode ficar com meus presentes, minhas lembranças, meus exemplos, meus poemas, minhas andanças, minhas crianças, minhas festanças... E se depois dessa prosopopeia ainda estiver insatisfeito, me procure pra que eu sane suas vontades, pra que eu cure suas feridas, pra que eu procure suas sandálias, pra que eu trate dos seus sentimentos, pra que eu devore os seus pensamentos, pra que eu torça seus arrependimentos, pra que eu corra dos seus tratamentos, pra que eu tire suas roupas, pra que eu morra com tuas faltas, pra que eu pegue teus vazios e transforme-os em quase nada. Quer que eu pendure no varal os seus casacos? Quer que eu enxugue suas lágrimas do chão? Quer que eu limpe o seu coração? Quer que eu dance como o vento? Quer que eu seja o melhor entretenimento? Quer todos os meus desapegos? Quer minhas gírias e meus aparelhos? Quer que eu te remova do sofá e te traga pra cá? Quer doce no jantar?


“E assim, quando mais tarde me procure... Quem sabe a morte, angústia de quem vive. Ou a solidão, fim de quem ama, eu possa lhe dizer do amor (que tive): que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure...”


Posso citar grandes trechos, posso cantar belos sonetos, posso declamar pequenos folhetos, posso ler grandes romances, posso investigar todos os antepassados, posso rasgar meus poucos trapos, posso nadar nua no rio, posso ser útil até que enfim, posso ser doce, ser crua e sem fim, posso ser bela, ser fera e ser cruel, posso ser toda sua, posso apertar sua cintura e pedir... PARE!


Até que a morte nos separe. PARE! Até que a música nos fale. PARE! Sem tristes começos e épicos fins, mostre ao que veio e não se vá sem mim. Tenha um belo dia e um incrível recomeço. Tome Coca-Cola sem data e sem preço, coma todas as panquecas sem torcer o nariz e, enfim, pregue sua discórdia bem longe de mim. Fim.