quarta-feira, 26 de setembro de 2012

De repente... 99.

Ela, sentada em sua banqueta na penteadeira do seu quarto, se olhava. Estranhando cada parte do seu rosto, parecia  que não se olhava há anos. Tinha ainda em seus olhos o brilho, mas era diferente, não era mais  menina, nem moça, nem mesmo era considerada mais uma mulher bonita... Era uma senhora. Seus cabelos não tinham mais a vivacidade de outrora, antes eram aqueles lindos, sedosos e longos fios pretos de cabelo, que lhe vinham à cintura e lhe caíam tão bem quanto aquele vestido florido que usava sempre que lavava roupas no quintal, aos finais de semana. Agora eram fios brancos, desgrenhados, semelhante à relva quando coberta por neve.
Em seus olhos passava um filme, um filme de lembranças boas e ruins que acumulou durante sua longa jornada, mas que lhe parecia tão curta. Sentia falta do falecido marido, o único amor verdadeiro que tivera... Ah "é tão curto o amor, e tão demorado o esquecimento", tinha essa frase gravada em seus diários de menina, era apaixonada por poesias quando moça... Ao passar dos tempos perdeu o interesse. Talvez a falta de tempo para contemplar as coisas da vida, talvez por ter de cuidar de seus filhos, de seu marido, da casa, de sua própria saúde, de suas saudades... Não havia momentos livres para seus caprichos entre os almoços de domingo e os terços que rezava à tarde.
Sentada ali no quarto sozinha, pensava estar só. Não apenas de companhias de corpo presente, mas no geral... Foi vendo cada pessoa que amava morrer, cada um de seus amigos, familiares. Primeiro foi mamãe que partiu, depois o irmão mais novo em virtude da doença. Lágrimas agora escorriam de seus olhos, lembrar nem sempre era viver, nem mesmo fazia tão bem assim. Secou com a barra do vestido puído, os olhos e olhou para as mãos, em um gesto completamente admirado. Ficou virando de um lado e de outro as mãos desgastadas pelo serviço doméstico e pelo tempo, cheia de sardas, marcas, veias saltadas, algumas cicatrizes pequenas, e suas unhas... Que antes sempre bem feitas e coloridas, agora apenas, unhas.
Sentiu um aperto no coração ao se olhar novamente no espelho, e perceber que não fez nem metade do que sonhava quando pequena. Que não se formou como enfermeira como sempre quisera, nem escreveu todos os livros que imaginou, nem visitou os lugares que desejava... É verdade que aprendeu a pintar belas telas, tecer belos bordados, cozinhar bolos de encher os olhos e a boca de água, até tocar bandolim ela sabia... Mas naquela época era o que as moças de sua idade faziam, como elas passavam o tempo. Em suas alienações, seus casulos, sendo treinadas para o casamento, para o marido e para suas famílias futuras.
Esse aperto no coração durou minutos, entre flash's de lembranças e olhadelas no espelho, seus olhos flutuavam no tempo. Seu rosto envelhecido, com rugas que rodeavam sua boca, seus olhos, até suas orelhas, suas bochechas que não tinham mais aquela firmeza de antes... Ela não conhecia essa mulher que via no espelho. Ela se lembrava de ser uma bela mulher, que recebia elogios quando passava na rua, de cabelos poderosos, altivez de rainha e rosto de anjo. Olhos de criança, boca de pêssego, cheiro de loção, sempre vestida com simplicidade, apenas o suficiente para os trabalhos de casa e para não passar calor. Vestidos, blusas e saias, sandálias de dedo, e alguns adereços que costumava usar no cabelo. Que lhe davam um toque mais feminino.
Não era mais assim, e se lembrando de tudo isso chegou até seus lábios o traço fúnebre e triste de um sorriso nostálgico, cheio de mágoas, remorsos, tempo perdido. Não queria morrer, o fim da vida era tão triste, mas não estava feliz vivendo daquela forma. Passando de tempos em tempos da sala para o quarto, do quarto para a cozinha, entretida com suas coisinhas e de vez em quando com a ligação de sua filha que agora morava longe na cidade grande. Ela não tinha mais sonhos, nem planos. Não tinha mais vontade de comer nem de cozinhar, não sentia mais nem desejo sexual... A única coisa que sentia, e sentia muito, era saudade. Saudade do tempo que nunca mais voltaria. Saudade de ter alguém para abraçar quando estivesse frio e ela estivesse com medo. Saudade de ter a casa repleta de vizinhos e amigos, todos reunidos à mesa para comer dos quitutes tão bem elogiados...
O tempo foi cruel.
E quando ela menos esperava.
O tempo a levou.
Sem despedidas. Sem lágrimas, sem dor.
Só com um beijo das lembranças, e do marido no porta-retrato.