sábado, 29 de setembro de 2012

Mamãe já dizia...


MEMORIAL (COMPACTO) DE CIBELE BAPTISTA

INTRODUÇÃO
Escrever sobre suas memórias deve ser coisa de gente muito vivida - pensava eu - coisa de personalidades importantes, cheias de notoriedade, viajadas ou com experiências muito exóticas. Nunca imaginei que minha estória pudesse conter algo que interessasse alguém mais além de mim e minhas filhas, ou alguns amigos mais íntimos, porém estou agora diante do desafio de lembrar e descrever fatos passados de minha vida que tenham relevância! Farei o meu melhor para ser o mais verossímil e acadêmica possível, uma vez que a narrativa é minha maior amiga literária e sempre que recorro a esse gênero, acabo divagando (sem querer) e inventando muitas estórias... Porém, diante da necessidade de expor um memorial o quanto mais conciso e fiel possível, irei identificar dentre minhas aventuras e desventuras, os acontecimentos que julgo eu serem o prognóstico da minha licenciatura em Geografia, para isso, grifarei todas as passagens onde encontro relação com minha amada ciência e buscarei me ater aos fatos (sem divagar muito) respeitando o máximo de páginas a que o trabalho me obriga.

AS MEMÓRIAS REMINISCENTES
Tive dessas infâncias de antigamente: subia em árvores, soltava pipas, jogava bola, inventava brincadeiras e estórias, comia frutas apanhadas no pé, vivia de joelho ralado, correndo pra lá e pra cá, meu primeiro lugar favorito, onde me lembro, era o grande quintal da nossa casa onde papai criava galinhas e patos e também tinha um bom pomar, fui rainha desse quintal/território por dez anos e meu irmão mais novo (hoje Engenheiro da Petrobrás) era meu único súdito, meu tesouro eram espigas de milho e as galinhas, o meu gado.
O segundo lugar de minha lembrança era um sítio numa cidadezinha próxima, de propriedade de uns Tios, onde eu passava férias, lá eu não tinha limites para brincar, era muito espaço e muita estória pra inventar, aventuras todos os dias e um lindo riacho onde nadávamos, além do trem que passava todos os dias pouco antes do almoço e era um compromisso assisti-lo com seus apitos e janelinhas indo embora lentamente, fiquei muito triste quando desativaram a linha férrea por aqui, fiz três viagens de trem, dava pra ver as paisagens... Gostava quando passávamos perto de casas e havia roupas no varal ou crianças brincando, era tão bom ver outras vidas pela janelinha do trem.
Estudei na mesma escola o Ensino Fundamental inteiro, da primeira à oitava série, sempre gostei de estudar, sempre fui boa aluna (com ótimas notas) e sempre tive paixão por mapas, comecei a aprender Geografia a partir da sétima série (hoje oitavo ano); quando peguei meu primeiro livro de Geografia no começo do ano, li inteiro, devorei, observei os mapas com muita atenção e admiração, até pedi um globo de presente no meu aniversário de doze anos, mas ganhei um par de brincos, pois meu pai não encontrou o globo em nossa cidade, essa passagem eu quero detalhar, pois eu tinha uma amiga de pais abastados (o que não era meu caso) e na casa dela tinha uma biblioteca muito grande, com piano e uma estante gigante cheia de livros, muitas enciclopédias e nós (os desfavorecidos), íamos estudar e pesquisar na biblioteca deles, pois eram pessoas maravilhosas, que apreciavam cultura e conhecimento (naquela época não existia computador), pois bem, eu vi um globo e um planisfério a primeira vez na minha vida na casa dessa amiga, fiquei maravilhada, extasiada e pedi ao meu pai esse presente.
 História e Literatura também me fascinavam (ainda fascinam), li e ainda leio muito, conheço quase o mundo todo através dos livros e foi num deles que descobri que eu gostaria de estudar Geografia.
Eu cursava o primeiro ano do Ensino Médio, num bom colégio de nossa cidade na época, hoje não existe mais, aliás, esqueci-me de contar que sou nascida e criada em Barretos, morei fora daqui por cinco anos, em Ribeirão Preto, mas voltei pra cá quando nasceu minha primeira filha. Voltando ao livro, no primeiro ano do EM, eu tive um professor chamado Regalo, que lecionava Geografia e passou como dever a leitura de um livro que pra mim foi um divisor de águas na minha vida, o livro chama-se “As Veias Abertas Da América Latina”, o autor é Eduardo Galeano, um escritor uruguaio que escreveu esse livro em 1971, é considerada sua obra prima; esse livro era indicado geralmente por professores de História, porém nos foi pedido e eu nunca mais fui a mesma depois de conhecer como se deu a exploração econômica da América Latina, fiquei ao mesmo tempo estupefata e indignada, disposta a me aprofundar nos estudos da dominação econômica... Isso foi há vinte e seis anos...
A vida me obrigou a seguir outros rumos e os estudos mais aprofundados ficaram pra depois, casei, tive três filhas, me divorciei e depois de muitos anos vislumbrei a possibilidade de voltar a estudar Geografia, não pensei duas vezes, era minha chance! Cá estou eu relatando a Geografia em minha vida e confesso: orgulhosa de mim, embora não saiba ainda aonde vou chegar, mas com a certeza que meus alunos terão uma professora no mínimo apaixonada por sua ciência!
CONCLUSÃO
Prezo muito o estudo de maneira geral e tal qual Morin, prezo a “cabeça bem feita”, o conhecimento construído, a interdisciplinaridade, acredito que a leitura é o melhor veículo do conhecimento, os jovens de hoje leem por muitas horas do seu dia, mas não se atém à boas leituras, passam horas desfrutando de bobagens na internet, acredito que a escola deve chegar a eles por esses canais e o conhecimento, bem como o interesse pela leitura também. Minha estória passada (muito resumida aqui) pode me levar a entender e revelar realidades: serei uma semeadora de dúvidas, uma adubadora de sonhos, uma incentivadora do conhecimento, da cultura, pois mesmo tendo vindo de origem humilde, desde pequena entendi o valor do estudo, do conhecimento, da cultura e das origens... Sim... As origens nos remontam aos valores de nossa coletividade e à importância de nossas atitudes dentro de nossos contextos. Como diria Paulo Freire, 1979: “A educação não transforma o mundo, a educação muda pessoas, pessoas transformam o mundo”.
Acredito na educação, acredito na construção do conhecimento, acredito que com paciência e didática pode-se realizar um trabalho sério e direcionado!
Meu memorial, quase um desabafo, termina aqui, muito bom escrever em primeira pessoa academicamente, uma das maiores dificuldades que enfrento nessa graduação são justamente a formalidade e o academicismo na confecção de meus trabalhos, já pensei em cursar Letras por amar escrever com estilo livre, porém Geografia me fascina muito, muito mais...

 A informação é o grande instrumento da grande finança, instrumento do processo de globalitarismo e de formas totalitárias devidas.” MILTON SANTOS, em entrevista aos 04/01/2001.

“Educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que pouco sabem - por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais - em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais”. Paulo Freire, 1979.
  
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

A CABEÇA BEM FEITA – REPENSAR A REFORMA, REFORMAR O PENSAMENTO.
Autor: Edgar Morin, 16ª Ed, Editora Bertrand Brasil, capítulo 2, págs 21 – 33.
FREIRE, Paulo. (1979), Educação como prática da liberdade. 17ª Ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra.