sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sonho da vida

Cena 1 - Acordando
Maquiada, dos meus olhos escorriam neve. Maquiada com minhas desculpas e meu carisma, cheia de choros mal chorados e momentos inacabados. Feita de músicas tortas e cadencias inaudíveis. Doces, café, pão. Eu não sabia o que estava escrito ali, mas a chuva me fez reler e me fez entender. Chuva, obrigada por vir clarear esse sonho tão duro e indomável no meu peito. Os alforges estavam prontos para o trabalho, e eu pronta para amar. Naquele dia cheio de árvores, fotos e barracas não entendi nada. Nada, nada. Como esse texto: não há meios de entender completamente. Aqui no texto o momento é meu, naquele dia não.
Mas não me lembro dos olhos, nem das mãos, nem da voz... Não consigo me lembrar de mais nada, esse sonho está ficando intenso... Me reviro na cama em pensamentos, navegando entre o martírio das lembranças, planos, agendamentos e horários, bêbada de sono semiapagada, mas ainda não em estado profundo de sono. Meus ouvidos captavam o trilili que a chuva fazia na janela e a batida ritmada da casa, das pessoas, dos gatos no quintal, dos passos que iam e vinham sem destino conhecido por mim.

Cena 2 - Acordada
Minha bexiga apertada, desperto para responder ao chamado natural: fazer xixi. Talvez  seria mais louvável fazer fotossíntese, me sentia com o corpo pesado... Logo hoje que havia planejado tantas coisas a fazer! Terminado o processo xixi - lavar as mãos - secar as mãos - fechar a porta - voltar pra cama, me deito de bruços e de repente me vem à mente aquele dia trágico, que fiz esse mesmo movimento, quase que pude sentir a lágrima chegar aos meus olhos, me molhando de tristeza e nostalgia. Mas minha alegria em viver estava razoável e eu não pude chorar naquele momento.
Me ajeitei na cama, entre ursos e travesseiros (um que agora eu uso para tentar sanar a falta que o outro corpo me faz, mas nem sempre dá certo). Olhei para meus pés, e comparei com os de um macaco selvagem. Olhei para os pelos do meu braço e fiz o mesmo. O sono parecia me enlouquecer, entre pensamentos ridículos e atos não menos idiotas, torno a me ajeitar para o sono. Abraço o urso mais novo que tenho, beijo-lhe o focinho e vejo que não é a mesma coisa. Fico matutando entre pessoas e vontades. Entro no sonho....

Cena 3 - Sonhando
Quando penso que estava livre do sono, o sonho me pega. O local é diferente, talvez nunca estivera ali antes, mas não sei exatamente o porque da intimidade que eu já tinha com aquelas coisas e aquelas pessoas que eu nunca tinha visto antes. Era estranho e instigante, uma espécie de castelo antigo, com móveis modernos. Quando menos espero deparo-me com a fera. A fera de cabelos pretos e expressões marmóreas, meu coração congela de medo e fico ali estremecida com sua presença. Não porque ainda amava, sentia a falta ou a saudade, mas me caía o medo das lembranças. Tão real, confundia a realidade com meus sonhos naquele momento. Eu tentei ignorar tudo o que me vinha à cabeça, mas algo ocorreu logo em seguida, que foi melhor do que qualquer coisa. Você apareceu. E me abraçou. E cuidou de mim, o sonho ruim tornou-se maravilhoso... Eu conseguia até sentir seu cheiro naquele momento.

Cena 4 - Despertando
Mas acordei, abraçada no travesseiro. Apertei ele como se estivesse sentindo você, mas não era. Saudade me bateu. Então resolvi levantar e pensar em outras coisas, ouvir música talvez. Fiz tudo o que eu queria fazer, até um pouco mais. Depois de acabado o tempo e os afazeres, sentei-me na sala e tornei a pensar, incessantemente. Lembrando da sensação estranha do sonho, a mistura de decepção com felicidade. Talvez meu gosto pela vitória, por conseguir superar medos e pessoas. Superar o passado. Foi bom, pelo menos pra mim está sendo bom. Estou aprendendo a lidar com o amor dentro de mim, e com o amor dentro de você. Respeitando seu espaço, seu tempo e sua vontade. Mas mantendo o que sempre foi: nem sei mais do que to falando. Fim.