sábado, 13 de outubro de 2012

Conto da noite


De mãos vazias, atadas. Unhas mal feitas, mas cortadas. Cabelos uniformemente desalinhados. Voz estranhamente familiar. Olhos risonhos. Tinha invenções guardadas e pessoas escondidas em seu âmago. Tinha fábulas escritas, em papéis velhos de máquina de escrever daquelas bem antigas. Tinha um chapéu que ornava com seu sapato. Tinha um cachorro velho e fedido, uma corda de quintal, um carro que não funcionava e uma dívida divina impagável. Era tudo o que lhe sobrara de herança.
Não sabia se era menino ou menina, nada deixa transparecer. Nem gostaria de saber bem dessas coisas. Interessava-se pelas coisas que realmente tinham interesse. E encantava-se quando apareciam do nada, aquelas borboletinhas brancas, que dão sorte. Também gostava de cheiro de grama recém-cortada e de água de chuva que cai na terra. Gostava de cheiro de lençol limpo e boca que tinha acabado de escovar os dentes. Gosta dessas coisas. 
Lia os encartes de locadoras e imobiliárias que chegavam pelo correio, ficava a par das notícias locais pelo jornal da manhã, comia um pão com manteiga, engolia um suco de laranja azedo e assim começava seu dia. Pegava sua bicicleta barulhenta, tentando manter o máximo silêncio possível, colocava sua bolsa de lado no ombro esquerdo, ligava o seu velho MP3 nas músicas matinais e saía mais feliz que criança em parque de diversões. 
Primeiro passava na pracinha, olhava para todas as árvores e se certificava de que estavam todas lá, como no dia anterior. Depois visitava a melhor amiga.
A amiga: loira, menina, menina chata, mimada, olhos quase que laranja, não sabia contar números, mas contava histórias inventadas muito bem. Usava um lenço para amarrar os cabelos bem no alto da cabeça, fazendo um grande laço, sempre usava blusas de decote e regata, shorts e sandálias... Gostava do calor e do tempo abafado, gostava de curtir preguiça na piscina. Não trabalhava, não gostava de estudar e só falava bobagens.
De volta: Depois de passar na casa da melhor amiga, pegava o caminho das árvores, só pra não pegar o sol das 11 horas, que lhe fazia mal à pele. Parava na esquina da rua do mercado, descia e trancava sua bicicleta, caminhava por uns 4 minutos até a frente da escola que ficava de frente ao mercado e entrava. Na escola não tinha amigos, não conversava com a professora, não gostava de ninguém de lá. Todos ficavam lhe fazendo perguntas irritantes e olhavam com olhos irritantes e falavam com suas vozes irritantes e andavam seus passos e trejeitos irritantes... Era o alívio do dia, sair daquele lugar... No mínimo... Irritante!
Pegava sua bicicleta e voltava para casa, para a solidão e para o diário. Escrevia e desenhava, marcava o que era importante nos livros que lia, separava papéis importantes para o futuro, recortava matérias que poderiam ser úteis, mas... Nunca precisou de fato de nenhuma das coisas que separava. Era mania? Hobby? Depois que fingia estudar fazendo essas coisas, pegava o livro mais velho que tinha na estante, mas parecia ser o mais amado, o mais cuidado e zelado, e com todo cuidado deitava-o na mesa de estudos. Abria-o, folheava as primeiras páginas, passava pelo prólogo sem muita importância, parava na primeira página, no primeiro capítulo e lia as primeiras palavras grafadas em letras barrocas, desenhadas: "Era uma vez..." e parava naquilo mesmo. Não lia o resto, nem sequer virava as folhas. Fechava o livro, com o mesmo cuidado que havia aberto, e retornava-o para a estante, dando mais uma última olhada no cavalete onde estava gravado em letras douradas: "Livro de família: contos de gerações". Talvez seu medo de terminar essa história nem era o de se decepcionar com o final, mas de conhecer os segredos que aquelas páginas ocultavam por tantos anos. 
Tinha uma família imensa, mas era como se tivesse nascido da mãe natureza e educado pela mãe cidade. Suas mãos estavam cansadas de escrever e teclar o piano surrado que ficava na sala, mas continuava da mesma forma. A casa era grande, com muitas pessoas, mas a solidão estava presente na face de todos ali. Olhos fundos, sem amor, sem luz nenhuma. Cabelos em pé, poeiras aparentes, parentes que nem se conheciam. Não conversavam entre si. A mãe, o pai, a vó, o irmão mais velho a irmã do meio e ele. Tinha também o cachorro fedorento, mas ele estava já à beira da morte, e só ficava deitado no tapete de frente ao quarto do caçula, nem fazia diferença na rotina da casa.
A casa: escura, mal cuidada, sem alegria. Poeirenta. 
De volta: Já no quarto, pegou o caderno de avisos, anotou algumas coisas sem importância, sentou-se na cama e pela primeira vez (ou segunda, talvez, não se lembrava mais)... Chorou. As lágrimas corriam seu rosto redondo e lânguido, lavava seus lábios e chegavam a cair na gola da blusa branca. Agora se via claramente, que seu rosto juvenil era de um garoto. Via-se claramente que aquele ar tímido e marmóreo havia sumido e, mesmo chorando, seu rosto agora trazia vida. Os cílios estavam grudados, molhados com as lágrimas, a ponta do nariz vermelha e as mangas da blusa úmidas, por usar como lenço. Só chorou. Por gloriosos 9 minutos e meio. 
A imagem era cômica: no quarto, só, chorando. A casa silenciosa dava o tom da trilha sonora, e deixava tudo mais triste, mais sombrio. Só ouvia-se o choro do menino. Ninguém se interessou por aquilo. Nem o cachorro, nem a poeira da casa que acompanhava o ritmo desuniforme do vento nas janelas.
Acabado o choro, a agonia e a tristeza, secou as lágrimas, ajeitou as roupas, penteou os cabelos que vinham até os ombros, arrumou a cama aonde havia bagunçado, desceu as escadas, foi até o quintal, pegou sua bicicleta barulhenta e voltou para a rua, onde se sentia menos só.