quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dadivosa


Naquele dia ela abriu os olhos. E enxergou-se como mulher. E com esse pensamento na mente, levantou-se da cama, vestiu o hobby e foi até o banheiro, fazer o que fazia todas as manhãs. Lavou seu rosto, que já começava a dar sinais de idade, olhou-se fixamente no espelho com as mãos apoiadas na pia e o roupão entreaberto no corpo, que também começava a dar sinais de envelhecimento. Percebeu que não tinha mais idade pra levar a vida que ia carregando desde então. Seus olhos pretos, borrados de maquiagem da noite passada, vermelhos pela ressaca, doloridos pela luminosidade. Estava cansada, frouxa. Queria voltar pra cama, mas seu primeiro emprego lhe chamava e não podia se dar ao luxo de faltar um dia sequer, era sua obrigação trabalhar até conseguir pagar as dívidas que o falecido lhe deixara. Aquele canalha - como ela mesma se referia a ele - a única coisa que soube fazer na vida foi dívidas, e deixá-las todas para mim.
Após alguns minutos de contemplação no espelho, acordou de seus vislumbres momentâneos e suas vontades de viajar e conhecer pessoas diferentes, sair daquele buraco, ganhar o mundo... Mas antes tinha coisas a fazer. Ajeitou os cabelos com as mãos, amarrando-os com uma fita qualquer que encontrara por ali mesmo, trocou de roupa, limpou a maquiagem, deu um sorriso amarelo para seu reflexo descambado no espelho e foi para o trabalho.
Ao entardecer, voltou para casa exausta, sem vontade nenhuma de ir para o segundo trabalho. E quem teria? Deitou na cama, no seu refúgio, seu cenário. Nunca levava ninguém lá. Porque aquele cenário era o melhor da sua vida... Não porque era luxuoso, ou cheio de riqueza, nem sequer tinha essas coisas. Mas justamente por ser só seu. Um lugar bem simples onde não precisava se subordinar aos gritos do patrão da lanchonete, encher os cabelos de gordura todos os dias e aguentar clientes abusados. Nem precisava ser libidinosa, falsa, interpretar amor, interpretar prazer, sendo que as únicas coisas que sentia era ojeriza e medo. Tinha vontade e matar todos aqueles homens sebosos e pegajosos que a levavam para motéis baratos, para satisfazer seus desejos infiéis, carnais, quase que conjugais. Homens saciáveis, pois, já além da juventude, já não aguentavam muitas emoções. Apenas se alimentavam do prazer carnal que aquela mulher, aquele pedaço de carne poderia lhe proporcionar e deitavam-se acomodados em seus seios fartos de mulher que um dia amamentou. Ela queria mudar sua vida, mas não poderia simplesmente atear fogo àquelas lembranças e pessoas e espalhar pela cidade toda aquela luxuriosa regozija que vivera. Era mais. Era muito mais do que aquilo ali.
Recobrou os sentidos já era meia noite. Se recompôs, mesmo que seu coração estivesse aos pedaços, retornou ao seu costumas sorriso seco e seus olhos que levavam lembranças sombrias.... De quem apanhou do marido e perdeu o filho, não para as drogas ou traficantes, mas para a própria família. Sua mãe lhe arrancara a guarda do pequeno assim que o falecido fez o favor de bater as botas... Ela amava o filho e ainda iria conseguir viver junto dele. Ela sonhava.
A madrugada passou devagar. A casa solitária aguardava a presença de sua dama. Ela comia nos intervalos que podia, e na lanchonete o patrão deixava que almoçasse e lanchasse, mas não podia trazer para casa. Então nem tinha o costume de cozinhar, sua geladeira servia só para guardar as garrafas de refúgio, seus drinks noturnos de dia de descanso, água e, por ventura, alguns ovos. A cama era constantemente bagunçada, ela só arrumava quando estava de folga e queria se sentir melhor. Além de arrumar a casa para melhorar o próprio astral, costumava ver as fotos antigas e encher a cara, só para fugir um pouco. Fugir dos assombros de sua realidade, vivia entre recordações ruins de rumos mal tomados e escolhas falidas e seu presente, também atordoante. Mas a quantia de que precisava para saldar as dívidas em seu nome já estava quase toda juntada. Assim poderia pagar tudo e reconstruir sua vida longe daquele marasmo com seu filho.
Porém, todos os dias sua dívida aumentada pelos juros, os impostos aumentavam também, os preços iam às alturas, até o governo havia avisado que seriam tempos difíceis aqueles... O patrão a despediu, por falta de retorno financeiro fechou a lanchonete. As coisas pareciam vacilar, regredir, os passos iam para trás, arrastando-a mais a fundo em seu âmago de promessas não cumpridas, sonhos nunca realizados, dívidas não pagas. Ia se afundando mais e mais na própria solidão e na impossibilidade de ver-se longe de seus medos. Assustada com a impossibilidade de encontrar outro emprego, só havia a prostituição ainda para lhe sustentar, e agora novos gastos com comida. Também precisava de roupas, as suas estavam tão velhas e poidas que não serviam nem para pano de chão. Precisava conseguir, de toda maneira, não desistiria jamais de viver com seu filho, em algum lugar melhor. Precisava.
De tanto tentar. De tanto chorar, correr, morreu. Dois cortes lhe bastaram nos punhos cansados do trabalho explorador e dos estupros de seu corpo diários. Dois cortes de pura monotonia, machismo, perseguição, dívidas, choros, lágrimas, sangue, cama, seu único e verdadeiro refúgio. Morreu em cima de sua cama. Com os braços esticados em posição quase que bíblica, a viúva  prostituta que matara a si mesma morreu na mesma pose mundialmente famosa, na posição da cruz. Seus olhos vidrados n teto não lhe davam a feição de morte, nem tampouco de sofrimento. Morreu como se estivesse meditando, em sua essência de mulher, já quase atingindo os 47 anos, ia completar no dia seguinte. Morreu como viveu, dramaticamente. Morreu.