quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Visita - Parte 3


Asariel pegou seu manto e cobriu-se da chuva, voou até o alto da casa e orou, mesmo debaixo de chuva. Pediu que naquele instante sua escolha seja acertada e que não se arrependa de nada. Pois se arrependia de não tentar viver. Deus lhe dera o livre arbítrio então queria usá-lo pela primeira vez. E assim o fez. O processo era demorado... Talvez nem poderia nascer naquela geração, talvez seria até o filho de uma das crianças... Talvez nem isso... Mas ele tinha escolhido, então iria nascer.
No outro dia, a manhã estava lúgubre. O ar era triste e choroso. Talvez até caía uma lágrima das nuvens, mas era só impressão. Ele estava preparado para a primeira parte: perder as asas e todos os traços angelicais que lhe dessem força. Era doloroso, era triste, e Asariel chorava displicentemente, desesperadamente.
Ele iria sangrar por três dias e três noites, seus olhos perderiam as cores e seus ouvidos (pra ele era a pior parte) perderiam a audição, o poder de ouvir Deus.
No primeiro dia chorou 12 horas seguidas, e aprendeu o que era chorar. Depois sentiu frio e ele já não tinha suas asas para se proteger do vento, aprendeu o que era sentir. No segundo dia, ele chorou 8 horas, ouviu Deus de manhã lhe dizer pela última vez o quanto amava seu filho Asariel e o quanto admirava sua coragem, por sair de sua redoma protetora dessa forma para experimentar a vida na Terra, os sentimentos, provar na pele a capacidade da maldade humana. Deus sentia por seu filho estar deixando-o assim, não iria deixá-lo só, mas o contato diminuiria substancialmente. Nesse dia ele perdeu seus olhos de anjo, e a capacidade de olhar através da alma humana. No terceiro dia, Asariel chorou por 4 horas e já não podia mais ouvir Deus. Ele já tinha traços humanizados e começava a se esquecer de seu passado, tinha lapsos de memória e agonizava de dor até suas asas cicatrizarem. Era doloroso pra ele. Mas estava finalmente aprendendo o que era a dor, o sofrimento e estava se preparando para o mundo.