quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Visita - Parte 8


Na adolescência, o menino cresceu e tornou-se um belo rapaz. De coração e ações doces. Era afetuoso e sincero. Entendia que era diferente e que deveria encontrar seu caminho, a razão pela qual estava ali na Terra, com dezoito anos partiu em viagem pelo mundo para descobrir seu destino. De primeira mão sentiu leve aperto no coração por sair de seu lar, e aquele sentimento lhe trouxe algo necessariamente nostálgico, como se alguma vez já tivesse saído de casa.
Quando estava escolhendo o primeiro lugar onde passaria, olhou a lista de cidade e apontou para uma aleatoriamente. Escolheu uma cidade do interior... Pra começar seria bom não ir para s grandes centros. E foi. Carregando apenas o necessário e uma quantia certa e dinheiro.
Chegando ao destino, descendo na rodoviária, deu de topa com um senhor que estava sentado lendo um jornal, foi perguntar a ele se havia algum alojamento onde poderia passar a noite, o velho com ar ríspido respondeu:
 - Tenho cara de classificado moleque?
Assustado com a falta de educação do velho, Inácio respondeu à altura.
 - Não, mas tem cara de fofoqueiro.
O homem que antes estava apenas com ar ríspido tornou-se colérico de uma hora pra outra, fazendo um gesto obsceno para Inácio e bravejando em voz alta para o rapaz de cara pálida:
 - Quem você pensa que é menino? Acabou de chegar na cidade e já pensa que manda? Coloque-se em seu lugar, moleque encapetado!
Inácio não suportou a ira do velhote, e riu da cara dele. O que aumentou a raiva do ancião. E como se não bastasse respondeu:
 - Olha velhote, só pedi uma informação, se não queria me dizer não precisava me agredir. Estou profundamente ofendido com essa cena - rindo – e não arredo o pé daqui até o senhor me dizer aonde tem um hotel e por fim me pedir perdão!
O homem de idade avançada, não acreditando no que ouvia, ignorou o rapaz e voltou a ler seu jornal, balançando a cabeça de um lado para o outro negativamente. O rapaz que estava de pé, com cara de danado e curioso, sentou-se ao lado do senhor e fixou-lhe o olhar. Abaixando lentamente o jornal, o homem olhou praqueles olhos verdes marejados de tanta vontade de rir e com cara de bravo disse:
 - Vai passear menino, não quero mais papo cm você. Dê-se por contente que eu não tenha lhe dado umas boas bofetadas, sou velho, mas sou muito forte ainda... Você ia ver o seu.
O rapaz não se aguentou e gargalhou. Estava achando tão engraçada a cara do homem que se achava superior aos outros que logo comentou:
 - E você iria me acertar com a dentadura ou com a bengala?
 - Ora seu atrevido – o homem ficou colérico – vou te ensinar a ter educação, venha.
Levantando o velho foi chamando Inácio pra a briga, que se levantou e abraçou o homem de idade avançada. Desarmado totalmente após aquele gesto, o senhor acalmou-se e correspondeu ao abraço forte do menino, e chorou. Chorou. Não estava entendendo como aquele pivete estava tocando seu coração, antes estava sentindo vontade de esganá-lo, mas agora o amava como um filho. Ficaram ali na estação, em pé, abraçados como se estivessem cumprimentando-se após uma longa viagem. Soltando-se lentamente do abraço, ambos se olharam com lágrimas nos olhos e o mais velho então disse:
 - Sou Artur, venha comigo, hoje você é meu convidado e passará a noite na minha casa. Minha esposa vai adorar te conhecer.
E assim foram andando e conversando até a casa do homem. Ao chegar, a esposa estava sentada no sofá, fazendo palavras cruzadas com a televisão ligada, Inácio pôde entender porque o homem preferia passar o tempo na estação, o casal não se dava bem.
Eles não tinham filhos, Artur não podia engravidar sua esposa. Brigavam constantemente devido o gênio rancoroso do marido e a mulher carregava um semblante carregado e tristonho consigo. Ao olhar a visita, Adelaide abriu um sorriso forçado e deu boas-vindas ao rapaz. Apresentações feitas, a mulher viu o tanto que o marido estava tranquilo e alegre. Sem entender trouxe café e biscoito para comerem e conversarem na sala.
Inácio alegre contou como foi a viagem e o casal de velhos ouviu com atenção e admiração as palavras daquele estranho que apareceu em suas vidas. Após comerem e conversarem, Adelaide levou-o ao quarto, ele se instalou e sentiu-se em casa. Dormiu como um anjo naquela noite.
Felizes com o visitante, o casal passou a noite conversando cordialmente e o velho Artur contou à sua esposa como havia sido o encontro dos dois e como ele havia cedido ao abraço do menino, a mulher ria da história e sentia que seu marido havia mudado e que estava feliz de novo. Ficou bem ao ver o marido assim.
Ao amanhecer, Inácio acordou com o “toc toc toc” na porta. Adelaide foi chama-lo para o café da manhã. O menino aprontou-se para ir comer com o casal, mas quando chegou à mesa, notou que o velho não estava junto. Perguntou o porquê à senhora que desanimada disse:
 - Artur está indisposto, não entendo, estava tão bem ontem com a sua chegada, mas quando fui chama-lo hoje de manhã ele não estava mais do mesmo jeito. Pediu pra que ficasse até mais tarde e virou-se novamente para dormir. Eu estranhei, mas achei melhor não contrariá-lo, ele sempre briga comigo quando eu faço muitas perguntas.
O rapaz sem entender direito fez o seu desjejum com A Dona Adelaide, que docemente servia seu café e sorria para ele, mais animada do que ontem e mais corada também. Após isso, subiu até o quarto do casal para ver se estava tudo bem com o velho. Bateu na porta e o homem pediu para que ele entrasse.
Ele estava com um pijama azul listrado, sentado na cama com os pés em cima das velhas chinelas. Mostrou para Inácio a poltrona, para que o rapaz se sentasse lá. E assim falou:
 - Eu não me sinto bem. Não me sinto bem há muito tempo. Fui ao médico e ele me disse que mesmo com toda sua medicina avançada não poderia curar-me. Não sabia o que fazer com Adelaide, sentia medo de deixa-la só. Mas ontem, quando você me abraçou senti que finalmente eu poderia descansar e ter meu esclarecimento. Você chegou para nos salvar, para me salvar. Sinto como se você fosse o filho que eu nunca pude dar à minha esposa e sinto-me feliz por receber você. Agora te peço de coração que fiquei aqui conosco até minha partida e que conforte o coração de minha mulher.
Ouvindo o ancião com atenção, o rapaz concordava com a cabeça e sentia-se muito honrado por isso. Por ser escolhido dessa forma. Entendeu que a primeira missão dele era ajudar aquele casal e faria da melhor forma que pudesse.
Os dias foram se passando rapidamente, Inácio ajudava o senhor nos afazeres de casa e conversava com a senhora sobre qualquer coisa. Eles foram se conhecendo e tornaram-se uma família. As semanas iam se passando, e a piora do velho era notável, Inácio sentia seu coração apertar ao ver a tristeza de dona Adelaide e pedia a Deus para levar aquele homem sem sofrimentos demasiados.
O velho não sofreu. Mas também não avisou previamente que partiria. Da mesma forma que foi dormir o homem nunca mais acordou em um dia qualquer. Adelaide chorava de luto e abraçava Inácio. Foi triste. Semanas depois do ocorrido, a mulher se sentia melhor e agradecida pelo rapaz ter ficado com ela e cuidado dela com tanta atenção. Porém a missão dele estava cumprida e ele deveria partir logo. Com os corações apertados e os olhos cheios de lágrimas eles se abraçavam na estação e despediam-se. Ela pedia pra que ele ficasse mais, mas ele devia partir.
Enxugou os olhos e subiu no trem, acenando o adeus para a senhora de sorriso dolorido que via seu filho adotivo do coração partir. Era grata por ter conhecido uma criatura tão amável e de certa forma ingênua e maravilhosa. Sentia-se bem por ver que ele se sentia feliz por tê-la ajudado e assim deixou que ele partisse sem pesos no coração. Apenas com a saudade eterna.