quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sorte pra mim



Os meus olhos se perdem olhando sozinhos para o nada. Para nada. Nada que eu possa esquecer... Eu pedia com tanto clamor, com tanta vontade por todos os meus sonhos, que hoje são realidade. Eu pedia com tanta força, que o destino, simplório. Ou sabe-se lá o que rege todas as forças do universo, se viram encurraladas pelo meu desejo de vida, que não tiveram senão atender meus sonhos.
É estranho, porque me vejo tão distante... Não sei se me adapto à distância. Não vou me adaptar. Eu que sempre gostei de ser criança, eu não tenho mais nem a cara que eu tinha. Agora que me toquei, acho tão estranho... Cresci, sou moça. Não sei se deixei de ouvir as coisas que sábios me diziam, nem se eu deixei apenas de ser ouvida... Mas não vou me adaptar à tudo isso. Tudo tão estranho, me parece que tudo é tão pequeno perto de mim, e quando tenho que olhar para cima para enxergar o rosto de algum adulto, me sinto criança de novo.
Será que lá, pra onde eu vou, tem doce depois do almoço? Será que lá terá sabonete de limão e creme de algodão? Será que lá vai ter uma mãe me esperando ou irmãs que riem e brincam comigo? Será que lá terá algum Math ou uma Ge me guardando pra um abraço, um beijo, uma palavra, uma risada, uma piada, um choro triste ou alegre? Será que lá terá aquelas desavenças que deixo pra trás... É estranho.
Será que meu bairro se chamará Laranjeiras, e meu apartamento será  número 12? Meus vizinho será um velho arrogante que me manda parar de tocar guitarra às 18h da tarde? Será que eu terei alguma professora que usa aqueles óculos de fundo de garrafa, e são meio surdas? Será que na biblioteca da onde vou estudar, irão me receber bem, deixar eu levar quantos livros tiver vontade pra passar minhas horas sozinha, quando eu não tiver companhia nem tarefas? Será que vou ter um gato chamado Abreu, que vai dormir comigo e espantar os pesadelos e os medos das noites chuvosas longe da minha cama? Será que vou aprender a fazer arroz e à lavar minhas próprias roupas? Será que esses 5 anos vão demorar muito a passar? Será? Eu não vou me adaptar.
E quando eu não tiver mais forças, vou ligar para você chorando, pedindo colo, atenção, carinho. Pedindo, suplicando por amor. Por paciência, companhia. A solidão pode ser tão cruel. Pode ser que eu esteja só com medo, medo de cair, de não dar conta, de ser criança demais. Mas é que quando olhei no espelho... Essa cara aqui definitivamente não é minha. Essa olheiras não são minhas, essa pele branca de quem não toma sol há muito tempo também não são, esse cabelo de pé e essa cara derrotista também não me pertencem. Não sei quem é essa pessoa na qual meu espírito está habitando. Há muito deixei de ser a menina dos olhos gloriosos, e da pele vermelha de sol. Meu rosto, que antes era cor-de-rosa, agora tomou uma coloração meio acinzentada e gélida. Me sinto feia, pálida e fria com as pessoas ao meu redor.
Me preocupando demais com esses probleminhas da minha adolescência, esqueci de viver. Esqueci de amar. Só agora fui me lembrar de tudo isso e da importância que isso tem em mim. Estava muito triste. Estava longe dos meus outros sonhos. Estava sem um objetivo. Agora só tenho pra minha vida de imediato, a espera. A espera de passar na faculdade, de poder amar, de poder morar sozinha e perder o medo, aprender a trabalhar, a contar com o meu dinheiro e com a minha sorte.
Sorte ter amor na minha vida. Sorte ter alguém. Sorte.
Eu que sempre quis ser uma pessoa livre, nunca me vi e me senti completamente presa. À minha casa, às pessoas aos meu redor. Ao amor que um dia eu precisei e que agora sou viciada, não sei viver sem. Vou levar  Francisco e o Leopoldo, com certeza ambos darão a vida por mim, caso algum monstro deseje me engolir. Não estarei de todo só.