domingo, 17 de fevereiro de 2013

Carta de uma mulher

Eu fiquei acordada só para ver o sol nascer. Naquele momento eu não tive medo nenhum, nem poderia... só havia naquele lugar eu e minha própria sombra, meus medos e meus sonhos. Mas quais sonhos alguém como eu poderia ter? Seria eu um ser humano digno de olhar à frente, e encarar a vida com a dignidade que qualquer um encararia?
Então senti um leve arreio na espinha, de quem percebe que o momento perfeito já está indo embora, o sol já está alto, é hora de encarar a vida real e esquecer esses devaneios. Levantei, limpei a areia da minha saia de paetê, retoquei meu batom vermelho e voltei pra casa. Uma mulher como eu não pode se dar ao luxo de andar na rua de qualquer jeito, a qualquer momento. Nunca se sabe da onde sairão os intolerantes, e não é conveniente para ninguém andar por aí com cicatrizes de surras e lâmpadas no rosto, acabaria com a única forma que eu tenho de me manter.
Eu não sei se escolhi ser assim, não sei se foi por que eu sempre gostei de me destacar, ser diferente das outras pessoas infelizes. Eu só procurava minha felicidade. E estou certa de que quando subo nos palcos com minhas perucas coloridas, minhas maquilagens extravagantes e meus vestidos brilhantes... todos me aplaudem de pé e mandam flores, mas quando eu saio do meu personagem, e entro pra vida real as pessoas esquecem que sou uma atriz. Me agridem, me xingam, me humilham. Eu não desço do salto, de maneira nenhuma, mantenho minha dignidade, mantenho minha força. Porque não sou apenas um travesti na multidão, sempre fui diferente. 
Só não entendo porque os mesmos homens que me desejam na noite são os que me ferem durante o dia. São os que olham pra mim com nojo, como se eu espelhasse a alma deles e fosse tudo aquilo que eles queriam ser. Com toda essa minha coragem, com toda essa minha força. E olha... não desisto não, viu?