quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Crônica da rua, caminho de casa:

Respiração. Coração em uma cadência estranha entre medo e paranoia. Olha para trás... nada. Olha para a esquerda e para direita... nada também. Ela inicia a caminhada.
Ao virar a esquina e sair da avenida principal retoma o ar, olha novamente para trás e não enxerga nem um vulto, nada, ninguém. Ouve ao longe o latido dos cães da rua de cima, o ruído do ônibus terminando de subir a rua de trás e a moto do guarda noturno. Retoma a caminhada já descendo a rua, envolta em frio, fome, sono, cansaço e uma ponta de medo e solidão. Acima de sua cabeça os postes zunem um barulho maquinal e irritante. Um pouco abaixo do primeiro poste tem uma árvore Pata de Vaca, que produz aquelas vagens que quando secam, caem no chão e ficam boas de pisar, e ela sai pisando em todas possíveis.
Mais à frente o guarda vem subindo lentamente em sua moto desproporcional para o seu tamanho, resfolegando a cada acelerada a moto sibila até ultrapassar a menina com a dignidade ferida pelo peso do homem que a dirige e termina de subir a rua aos trancos e barrancos, como se o dever fosse mais importante que tudo naquela noite. Com aquele alarme irritante que faz “IUÍÍÍÍ” ele e sua motinha vão avisando pelas ruas que estão chegando... como se isso de alguma forma fosse afastar os bandidos/ traficantes / sequestradores/ deputados/ pastores/ bandidos em geral.
Continua a caminhada, agora ultrapassando o segundo poste ainda restam outros 8 pela frente. Ela olha novamente para trás só para se certificar de que não há ninguém montando guarda para sequestrá-la ou para estuprá-la. Olha para as portas das casas, fechadas, trancadas, luzes apagadas, tenta ouvir alguém roncando, mas é barulho demais que a rua faz de madrugada. O barulho do silêncio da noite é ensurdecedor, é gato gritando, cachorro latindo, postes zunindo, guardas noturnos, ônibus, respiração, pensamentos, vagens estralando, tudo ao mesmo tempo.
Agora ela ultrapassa a Perua estacionada (abandonada?) debaixo de uma daquelas árvores “Chorão”, que quando esmaga-se as folhas delas fica um cheiro maldito na mão e um melado rançoso e nojento. Olha por dentro do carro velho, sem vidro da frente e sem retrovisor, dá uma larga passada para o lado oposto e se põe novamente a caminhar. Aquela rua nunca lhe parecera tão grande e perturbadora, seu destino é a última casa, a esquina de portão que um dia já foi cor-de-rosa.
Só para se certificar, olha novamente por sobre os ombros e... opa... dessa vez ela viu algo. Ou será que era alguém? Não deu para ver direito. Ela se vira para frente assustada e aperta o passo, tentando ir mais rápido sem levantar suspeitas. Com a lua cheia a espioná-la, ela tira a bolsa, deixando-a pensa sobre um único ombro, abre o pequeno bolso onde guarda o enorme molho de chaves repleto de chaveiros como amuletos de sorte, coloca a bolsa de volta nas costas, já escolhe a chave certa do portão e olha novamente para trás e...
O vulto se aproximou mais rápido do que ela imaginava, olhou com olhos arregalados para o portão de casa esperando que este já estivesse aberto e sua mãe estivesse aguardando-a em segurança com uma espingarda de precaução nas mãos. Mas estava tudo trancado, fechado, lacrado e nem sequer as luzes da garagem estavam acesas para lhe facilitar a visão. O medo a deixa trêmula e suas mãos suavam, mesmo com o frio proveniente do pequeno córrego d’água que seguia seu caminho tranquilo logo ali mais abaixo, depois da cerca, no meio da fazenda que faz divisa com seu bairro.
No desespero ela deixa a chave cair no chão, ao abaixar para pegá-la se assusta com a própria sombra, cai para frente, bate a cabeça no portão e com o impulso é levada para trás numa tacada só. Respira, não olha para cima e nem para os lados, apenas para a chave. De um salto se levanta e pega a chave, escolhe a correta, enfia na fechadura e gira. A porcaria da chave trava no meio do caminho, o que estava se passando? A essas alturas o monstro já deveria estar em seu encalço, preferiu nem olhar. Colocou um dos joelhos no chão, passou a mão por debaixo do portão, pegou a trava de uma das folhas que o fecham, girou para cima a fim de abri-lo à força. Conseguiu.
Levantou-se gloriosa de seu feito, tirou a chave da fechadura e entrou como um jato para dentro de casa. Ao olhar novamente para a rua, viu a sombra que a perseguia desde o meio do caminho e notou que se tratava de seu Gato Breno, o astuto animal todos os dias havia de lhe pragar peças. Hoje não foi diferente. Ela terminou de entrar em casa, satisfeita por conseguir fazer todo o caminho triunfante e sobreviver aos perigos que a madrugada e a rua oferecem e já pensando quais serão seus obstáculos de amanhã.