terça-feira, 1 de outubro de 2013

Panela Depressão

Aqueles olhos, os olhos dela. Me olhavam como se desvendassem os segredos que iam bem no fundo da minha alma. Não me lembro se amava ou se odiava aquilo. Acho que ambos.
Jamais olhei para trás, mas essa noite começou diferente. Eu desci do ônibus com um ar de quem não queria ser incomodada, olhei para os lados: nada. A não ser os ruídos que vinham de longe, para lá da cerca. Fiz o caminho habitual e compenetrada em meus devaneios dei por mim que quanto mais pensava mais trancava o maxilar, mais doía minha boca. Imediatamente, meio perturbada ainda pela dor, entrei em casa como um flash que descobre o escuro vazio e sem vida e ali dentro não havia nada de novo também, eram os mesmo móveis grandes demais para a pequena casa que comportava grandes mulheres, as mesmas plantas dispostas sem nenhuma ordem certa pela casa toda, os mesmos gatos preguiçosos e indispostos que nos olham com olhos lânguidos quando sentem fome e com desprezo quando vai tudo bem, os mesmos fantasmas, a mesma solidão.
Pensei em um deus enquanto abria a porta dos fundos para entrar em casa. Repousei a chave na pia da cozinha em um gesto vago e tirei a bolsa das costas, depositando em cima do banco que fica na entrada da sala. Sentei no sofá, desconsolada, desanimada. Com a ponta dos pés tirei os tênis sem nem desamarrá-los depositando-os ao lado dos meus pés. Aquele velho par de sapatos que me acompanham há um ano e meio sabem mais de mim do que qualquer outro objeto no mundo.
Olhando para o nada me peguei lembrando dessas coisas, coisas que a gente faz sem pensar, que nos dão vergonha de lembrar quem somos ou porque agimos daquela forma, porque dissemos aquelas malditas palavras. Uma sensação estranha no estômago sempre me invade quando penso nesse tipo de coisa. Relevei e comecei a pensar em outra coisa subitamente.
Sem esperar mais tempo me levantei e fui trocar de roupa, colocar um pijama confortável e confiável, que esteja preparado para passar a noite em claro comigo, sendo o meu mais fiel companheiro de jornada, essa noite prometia insônia. E não foi apenas uma promessa, de fato eu não dormi.
Tão logo deitei no sofá e passei a imaginar situações possíveis do meu futuro e me lembrei dos olhos. Aqueles olhos que me olhavam tão lindamente e cruelmente também, num cenário não muito longínquo, apenas 15 km da cidade, em um lago tão bonito quanto esses olhos, natureza e silêncio me cortavam ao meio de ansiedade e angústia. Não me lembro a razão, mas estávamos ali olhando para a cara uma da outra como velhas irmãs que se encontram depois de 50 anos sem se falarem, se olhando com nostalgia e surpresas, esperando o melhor momento para o pedido emocionado de perdão e o abraço redentor. Foi sua vez de falar:
-O que te traz aqui?
Sem demora respondi:
-O mesmo que você, eu acho.
-Mas você não está apenas sonhando?
-Imagino eu que sim...
E ela estava certa, eu deveria estar sonhando mesmo. Mas era real, tão real que eu pude sentir seu cheiro. Me perdi nesses pensamentos e descobri que de fato estava sonhando, consegui driblar a insônia da noite... Mas esse sonho continuou.
Olhei para um lado, haviam árvores frondosas e verdes que iam no chão até se perderem de vista no céu, olhei para o outro lado e ao longe pude verificar a existência de uma rodovia. Não havia ninguém naquele lugar, nem sequer pássaros piavam ou cantavam, nem um cachorro sequer latia vagamente para o nada. Nada. Me senti sozinha, mesmo estando ao seu lado, tentei segurar sua mão e era pedra maciça e lisa. Desviei os olhos da rodovia para os seus e estavam fechados, entrei em desespero. Saltei do banco para tentar gritar por ajuda, mas você estava sumindo e eu tinha que segurá-la.... Eu tinha que fazer algo, eu tinha... Não conseguindo encontrar ajuda, procurei por algum telefone, os celulares saíam voando da minha mão quando eu tentava usá-los, e se libertavam para sempre, levitando sem sentido nenhum para o nada e sobre esse fato lembro de me indagar a razão daquilo e não chegar à nenhuma conclusão, então lembrei que estava sonhando e uma pequena ponta de tranquilidade me atingiu, ao lembrar que se eu acordar aquilo logo passaria.
Mas eu não acordava nunca e quanto mais eu pensava, mais você sumia. Eu tentava segurar suas mãos, mas você já não respondia aos meus estímulos, já não queria voltar para mim e a cada segundo que se ia eu permanecia estática, triste, cansada de tentar não pensar, chorando de terror na possibilidade de ficar presa naquele lugar tenebroso, cheio de lembranças lindas de um passado não muito distante. Eu estava com medo da solidão.
Sem razão ou porquê aparentes eu displicentemente saí correndo pela ciclovia a fora, descontente com a vida estava decidida a correr até chegar em casa e assim que eu chegasse, tomaria todos os remédios mais fortes que haviam na caixa de medicamentos com estampa de oncinha, que fica em cima da geladeira. Seria o meu ato solene final.
Mas uma mágoa se aproximou do meu coração, eu não seria lembrada por quem eu fui e sim pelo meu suicídio e a última coisa que eu queria era carregar o título Isabele, a Suicida. Comecei a correr na direção contrária, para me salvar de mim mesma e... Vejam só que surpresa... Um carro vermelho me atropela e eu morro tragicamente no meio da rodovia a caminho de um lugar que eu nunca vou descobrir qual é.
Minha morte foi tão rápida, estridente e eficaz, que no mundo real eu prendi a respiração e ao acordar estava sem fôlego, como se estivesse no cinema assistindo um filme em 3D, mas eu estava apenas no sofá da sala, suada como a tampa de uma panela de arroz e quente como uma tarde no Saara. Minhas roupas tortas mostravam que eu caí em um sono profundo e movimentado, cheio de sonhos e pesadelos... E ao pensar isso me lembrei de tudo: do lago, dos olhos que me olhavam a alma, do desaparecimento repentino, do medo e da solidão, da corrida e da morte. Me lembrei de pensar em um deus de novo. E comecei a filosofar sobre o assunto.

"O que você chama de Deus eu chamo agora de Equilíbrio Universal, que é o equilíbrio natural das coisas e dos acontecimentos, sem que seja preciso de um ente superficial, mitológico, superior ou mágico para garantir a harmonia das coisas. Afinal de contas precisamos ter uma razão a acreditar, caso contrário nossa Lenda Pessoal jamais seria cumprida e nossos pensamentos seriam perdidos numa eternidade sem fim, que talvez você chamaria de Inferno. E quando você cumpre sua Lenda Pessoal, ou o seu Karma, você entra para o processo evolutivo dos espíritos mais avançados e consegue aprimorar suas qualidades e aprender com os seus defeitos. O conhecimento é a base de tudo..."

Pensamentos assim me levaram pelo resto da noite afora e eu caí novamente no sono. Um sono sem sonhos, somente de reflexos e de flashes de imaginação e medo.