quinta-feira, 12 de junho de 2014

O que eu posso dizer sobre tudo isso?

As pessoas estão inconscientes da situação do mundo, o mal já começou. As pessoas estão rudes e ingratas, estão cegas. Meu coração hoje acordou amargurado, batendo fraco e lento, como se doesse muito trabalhar, andar, comer... Quase insustentável, indevido para o momento, caprichoso. As coisas estão ruins, estão apertadas. Tudo o que você pega escorrega, cai, suja, entorta, dobra. O que você veste aperta, incomoda, enforca, rasga. Os pés vão ficando descalços com o rastejar dos pés no chão duro e asfáltico, os dedos necrosando pela falta de oxigenação e circulação do sangue. Sufoca, arrepia, agonia. Aqui quem voz fala é a lei, a ordem máxima, a morte e eu somos parceiras (se me compararem com a Xuxa, quase que eu ganho).
Suas pupilas começam a dilatar, você não quer terminar de ler esse texto, mas vai. Vai terminar de sentir, vai conseguir entender. Coluna quebrando, pescoço estalando, unhas arranhando a parede rachada. Assimetria, descompasso, vergões, hematomas, vincos e bolhas. Repugnância na garganta, ânsia de vômito, nariz escorrendo. As leis vigentes já não encaixam, as normas não valem, a ética nem existe mais. 
As pessoas envaidecidas, cada qual com seu orgulho e ambição, defende seu território. Gritam, caçoam, espancam, julgam. Quem são esses que preferem a fúria ao invés de preferir a calma? Quem são esses anônimos conhecidos no mundo todo, que dizem defender nossos interesses dentro e fora de campo? Nesse campo de atuação meu interesse permanece intacto, ninguém modificou. O que dizer dessa organização, e dessa mistura que está no ar, de suor, sangue, maconha, sêmen, merda? O que dizer dos estupros? O que dizer dos espancamentos em público? Do preconceito enraizado? Da miséria, fome, desigualdade, impunidade, maldade? Coisas que não deveriam existir, por uma óbvia razão, mas que permanecem como uma peste negra na alma desse país que fede chulé e pinga. 
Vamos hastear a bandeira, meus caros, vamos! Como é que vamos mostrar nossa cara suja desse jeito? Mas o quê? Não tem água para lavar? Então usem cuspe, seus bastardos, usem mijo. Vamos! Eu exijo que todos vocês mostrem o melhor sorriso branco de todos. Mas o quê? Não tem pasta de dentes? Não tem nem dentes? Fodam-se, eu arrumo dentaduras. O que eu desejo é que vocês não deixem o samba morrer. Não deixem os gringos irem embora sem provar uma boa prostituta sem identidade e personalidade, sem história de vida, pois o que ela é? É só uma prostituta. Não deixem os gringos irem embora sem provar um pouco do nosso pó, pois somos referência mundial em tráfico de entorpecentes. Levem também alguns órfãos para esvaziar nossas fundações. Não deixem irem embora sem que maltratem as empregadas, os lixeiros, os índios, os professores, os negros, os doentes. Os hospitais estão entupidos de moribundos, parturientes, velhos e crianças, mas se morrerem nós podemos fazer uma grande fogueira com os restos e aproveitar pra comemorar a festa junina, pulando a fogueira de são joão, será bem conveniente, então podem deixar as mulheres parindo nas calçadas, deixem as pessoas deitadas nos corredores dos hospitais, os médicos são os carrascos da nova era. Ninguém se importa se você joga o lixo na rua, pode fazer como desejar, eu é quem estou dizendo. Eu que pedi que as pústulas desse país fossem cobertas com a capa da invisibilidade. Não acredita? Ainda bem, pois o que eu fiz foi espalhar uma cegueira que é contagiosa, e ela uma hora vai chegar até você e a única coisa que você vai enxergar é a tela da televisão e o campo. Nosso campo de atuação.
E se você se debater, vamos descer o cacete em você. Vamos rasgar sua pele, enfiar agulhas embaixo das suas unhas, arrancar seus cabelos com pinça, esfregar sua cara no muro chapiscado e se isso não te convencer vamos fazer você comer MacDonalds e ler Veja. Vai voltar doutrinado, disciplinado. Pois o que nós queremos é que dê tudo certo. TUDO CERTO. Isso tudo é certo? É certo?
Mas o que é o certo e o errado quando você já está no inferno? O que é a justiça quando quem mora nas mansões não está nem se importando com o que você faz, come, lê, assiste? Esse é o fim, o começo e o meio também. E eu sou a Lei. Sou o governo. Eu sou a alienação e a discórdia. Sou a polícia e política. E eu, apenas eu posso afirmar com veemência e certeza: vai ter copa sim.